segunda-feira, março 30, 2026

As seis décadas da Tricontinental e da Revolução Cubana revisitadas numa sessão do Atrium

 


Foi no passado dia 7 de março, na Boutique da Cultura, em Carnide, que o Atrium evocou as seis décadas da Conferência Tricontinental e da Revolução Cubana.

A sessão foi animada pelas nossas convidadas, a Raquel Ribeiro e a Marta Lança, que traçaram uma panorâmica sobre a história e a génese daquela conferência, cuja primeira reunião foi realizada em janeiro de 1966, bem como sobre a situação difícil hoje vivida em Cuba, fruto do endurecimento da posição dos EUA, liderados por uma administração que vem atuando ao arrepio do Direito Internacional e da Carta das Nações Unidas.

Com o objectivo de promover a solidariedade entre os povos da África, Ásia e América Latina, que eram consideradas as três grandes regiões dos chamados "países do Terceiro Mundo”, cerca de 500 participantes, oriundos de 82 países, compareceram em Havana para a Conferência Tricontinental, que teve lugar entre os dias 3 e 15 de janeiro de 1966.

A sua principal tarefa era lutar contra o imperialismo e o colonialismo, além de promover a descolonização e a independência política e económica dessas regiões.

Embora a organização já não exista, seu legado continua a influenciar movimentos políticos e sociais em todo o mundo, pois os seus ideais de justiça social, igualdade e libertação ainda são relevantes nos dias de hoje. Desse legado destaque-se o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, que se define como uma continuação da herança da conferência Tricontinental, lutando nos dias de hoje por um mundo de paz e justiça, baseado em dois conceitos relacionados, a soberania e a dignidade.

Refira-se também que a Tricontinental, além das várias atividades e campanhas políticas realizadas ao longo de sua existência, publicou a revista "Tricontinental", que era distribuída em vários países e continha artigos sobre questões relacionadas com o anticolonialismo, o socialismo e a luta contra o imperialismo.

Na sessão abordou-se também a actual situação de Cuba, com a nova escalada do bloqueio, levada a cabo pela actual administração americana, que constitui um criminoso projecto de punição colectiva de um povo.

Sobre este tema, pelo seu interesse e actualidade, reproduzimos extratos de um texto da nossa convidada Raquel Ribeiro, datado de fevereiro deste ano.

“…. Há pouco espaço para explicar o que representa este novo bloqueio energético. É pouco mais do que óbvio. Independentemente de o Governo ter diversificado as fontes de energia com investimentos na geração de energias renováveis, ainda não é suficiente. Se não há combustível não há transportes. Se não há transportes as pessoas não vão trabalhar. As escolas, universidades, comércio não abrem. Os tractores não podem arar a terra. Os produtos não podem sair do campo e abastecer mercados. As ambulâncias não podem transportar doentes. Os geradores, alimentados a combustível, deixam de funcionar. As bombas deixam de conseguir bombear água. Não há hotel e piscina em Varadero que aguente. As pessoas não conseguem deslocar-se, mas também não conseguem trabalhar em casa – sem electricidade não há computadores, telefones, eventualmente, internet. Nada de nada se produz. É um cerco que remete Cuba a uma condição quase medieval. E é precisamente essa a intenção do Governo dos Estados Unidos: apertar o garrote até o povo sucumbir, eventualmente se rebelar e, aí, intervir e impor o seu “regime change” (...).

… Cuba é um problema tão grande para os Estados Unidos que hoje, por causa de Cuba, da sua existência, de persistir no seu projecto, do facto de continuar ali, de não se vergar um milímetro, toda a política americana é, à escala nacional e à escala global, a emanação mais perfeita da política de Miami contra Cuba: autoritária, fascista, desumanizante. A chegada de Marco Rubio ao lugar de Secretário de Estado do Governo norte-americano é, em si, o triunfo da política esclerosada de Miami contra Cuba no coração do imperialismo, agora expandida ao mundo inteiro.

É por isso também que não é admissível a qualquer esquerda no mundo ficar em silêncio sobre a nova escalada dos EUA. Os “memes” que circulam na Florida sobre a transformação de Cuba num centro comercial, de arranha-céus, casinos, Walmarts e Taco Bells, são demasiado semelhantes às imagens partilhadas por Trump sobre a “riviera” que projectou para Gaza, sobre os escombros e os corpos de milhares de palestinianos, após mais de dois anos de bombardeamentos incessantes e do genocídio do povo palestiniano às mãos de Israel (…).

… Como escreveu o analista cubano Iramís Rosique, no Diário Red, “enquanto o socialismo cubano existir, o limite do possível e do radical continuará muito à esquerda. Somos os últimos soldados da ‘guerra fria’, à luz dos quais todo o progressismo e social-democracia continuam a parecer aceitáveis para o quadro geral do sistema”. Num momento em que os anos da “geringonça” são apelidados de “socialismo”, em que governantes como Pedro Sánchez ou Lula são considerados “comunistas”, diante do avanço imparável da extrema-direita e da internacional reaccionária apoiada por Trump e Rubio, “apagar a experiência cubana e encerrar definitivamente o capítulo do socialismo ‘real’ no hemisfério permitiria entrar numa outra etapa da guerra cultural, na qual os novos ‘intoleráveis’ seriam aqueles que ainda hoje cabem no pacto democrático liberal”.