Um fim-de-semana bem preenchido por terras alentejanas
Foi no sábado, 28 de março, que o
Atrium saiu bem cedo de Lisboa, a caminho do primeiro objectivo desta jornada
alentejana, o Centro Interpretativo do Vinho de Talha na freguesia de Vila de
Frades, concelho de Vidigueira.
Este é um interessante espaço
expositivo que conta a história do vinho de talha, dos tempos dos romanos à
atualidade, percorrendo todo o ciclo produtivo, que começa na cultura da vinha
no campo, passa pela produção nas talhas das adegas e termina, como não podia
deixar de ser, numa taberna onde o belo néctar é consumido e apreciado.
Foi uma visita guiada que nos possibilitou um conhecimento mais completo deste método de vinificação, que tem origens georgianas e romanas, feito em grandes ânforas de barro, chamadas talhas, e que foi introduzido em Portugal pelos romanos há mais de 2.000 anos, encontrando no Alentejo as condições naturais perfeitas.
A hora do almoço aproximava-se e rumámos ao restaurante “O País das Uvas”, próximo do Centro Interpretativo, onde apreciámos um excelente cozido de grão acompanhado, como não podia deixar de ser, pelo ancestral vinho de talha.
Uma referência “histórica” ao facto de o Atrium, numa visita ao Alentejo realizada há cerca de sete anos, mais precisamente no dia 8 de junho de 2019, ter jantado neste mesmo restaurante, que na altura tinha a designação de “Cella Vinaria Antiqua”, que em bom latim significa “Adega de Vinho Histórica” (quem quiser recordar essa visita, no blogue do Atrium poderão encontrar o texto e as fotos correspondentes neste link: Atrium Grupo Cultural).
Findo o repasto rumámos na direcção
de Cuba, onde iriamos realizar uma visita guiada ao Museu Literário “Casa
Fialho de Almeida”.
A casa, que foi residência do
escritor, foi adaptada com o objectivo de evocar o seu importante contributo
para a literatura portuguesa. Da sua obra, destacamos “Os Gatos”,
folhetins intitulados como uma “publicação mensal, de inquérito à vida
portuguesa”, publicados entre 1889 e 1894, que possuíam objetivo de crítica
e sarcasmo contra instituições e pessoas da vida portuguesa, constituindo uma
verdadeira autópsia cruel do país de então.
Para podermos apreciar a escrita
contundente de Fialho de Almeida, transcrevemos as considerações introdutórias do
primeiro fascículo de “Os Gatos”.
“Deus fez o homem à sua imagem e
semelhança, e fez o crítico à semelhança do gato.
Ao crítico deu ele, como ao gato, a
graça ondulosa e o assopro, o ronron e a garra, a língua espinhosa e
a calinerie [meiguice]. Fê-lo nervoso e ágil, refletido e preguiçoso;
artista até ao requinte, sarcasta até à tortura, e para os amigos bom rapaz,
desconfiado para os indiferentes, e terrível com agressores e adversários. – Um
pouco lambareiro talvez perante as belas coisas, e um quase nada cético perante
as coisas consagradas: achando a quase todos os deuses pés de barro, ventre de
jiboia a quase todos os homens, e a quase todos os tribunais, portas travessas.
Amigo de
fazer jongleries [malabarismos] com a primeira bola de papel que
alguém lhe atire, ou seja um tratado, ou seja um código. – Paciente em
aguardar; manso e apagado, com um ar de mistério, horas e horas, a sortida dum
rato pelos interstícios dum tapume, e pelando-se, uma vez caçada a presa, por
fazer da agonia dela, uma distração: ora enrolando-a como um cigarro, entre as
patinhas de veludo: ora fingindo que lhe concede a liberdade, e atirando-a ao
ar, recebendo-a entre os dentes, roçando-se por ela e moendo-a, até a deixar
num picado ou num frangalho.”
Um acontecimento que ensombrou esta nossa visita ao Museu, foi a queda da nossa amiga Teresa, causada por um degrau escondido, que lhe provocou a fratura de um braço, impossibilitando a sua continuação nesta nossa jornada alentejana.
O objectivo seguinte levou-nos até
Beja, e foi a evocação da Soror Mariana Alcoforado, num percurso junto ao
Convento de Nossa Senhora da Conceição, hoje Museu Rainha Dona Leonor.
Aqui fomos recebidos pelo nosso amigo
Miguel Rego (que deu um apoio decisivo na organização deste fim-de-semana
alentejano) e por António Barahona da Associação para a Defesa do Património de
Beja, que nos introduziu na história trágica de Mariana Alcoforado, a freira
portuguesa apaixonada por um oficial francês, que escreveu (alegadamente…) as
célebres cinco cartas de amor, publicadas originalmente em Paris no ano de 1669
e que ganharam grande impacto na literatura europeia.
Foi uma interessante conversa, ao
longo da qual o nosso anfitrião descreveu o ambiente vivido num recolhimento
monástico, naquela época, e apontou as dúvidas sobre a real autoria das Cartas,
cujo mistério mais se adensou com os factos históricos hoje conhecidos.
De facto, a investigação histórica
que foi feita no decorrer de séculos e até aos nossos dias confirmou, por um
lado, que a religiosa teria sido Mariana Alcoforado e, por outro, que o oficial
francês seria o marquês de Chamilly, na época em Portugal com o contingente
francês para apoiar as forças portuguesas que se opunham ao exército espanhol
na luta pela Independência de Portugal. Mais tarde, a continuada investigação
considerou mais provável que se tratasse de uma obra de ficção da autoria do
editor original, mas inspirada em factos verídicos.
Do que não há dúvida é da influência
cultural e literária da obra, adaptada diversas vezes ao teatro e ao cinema,
sendo mesmo uma referência na literatura europeia.
O dia bem preenchido terminaria no Hotel Holiday Inn de Beja, onde o serviço se caracterizaria, negativamente, pela falta de toalhas e de fronhas nos quartos dos viajantes…
O domingo nasceu soalheiro, o
Alentejo sempre nos recebeu bem, e arrancámos para Serpa, onde iríamos ter uma
interessante visita guiada ao Museu do Cante. Aí fomos recebidos por João
Matias, coordenador do Museu, que nos brindou com uma aprofundada e rica
explanação sobre o Cante, que terminou em grande, com os viajantes a
interpretar algumas modas, sobre a batuta dos “maestros” João Matias e Miguel
Rego.
Foi um momento de elevada qualidade
musical e de uma alegre confraternização…
Do formulário da Candidatura do Cante
a Património Cultural Imaterial da Humanidade da Unesco, que se concretizou em 27
de novembro de 2014, transcrevemos o seguinte texto:
“O Cante Alentejano é um género de
canto tradicional em duas partes, executado por grupos corais amadores no sul
de Portugal e nas comunidades migrantes na Área Metropolitana de Lisboa. O
repertório é constituído por melodias e poesia oral (modas), e é executada sem
instrumentos musicais. Os grupos de Cante reúnem até 30 cantadores que se
dividem em três papéis: o “ponto” inicia a moda, seguido pelo “alto” que
duplica a melodia uma terceira ou uma décima acima, muitas vezes adicionando
ornamentos. Todo o grupo coral se junta em seguida, cantando os versos
restantes em terceiras paralelas. O alto é a voz orientadora que se ouve acima
do grupo em toda a música. Existe um vasto repertório de poesia tradicional,
bem como versos contemporâneos. As letras exploram tanto os temas tradicionais
como a vida rural, a natureza, o amor, a maternidade ou a religião, como as
mudanças no contexto cultural e social. O Cante constitui um aspeto fundamental
da vida social das comunidades alentejanas, permeando reuniões sociais em
espaços públicos e privados. A transmissão, entre os membros mais velhos e mais
jovens, ocorre principalmente nos ensaios dos grupos corais. Para os seus
praticantes e apreciadores, o Cante encarna um forte sentido de identidade e de
pertença. Reforça também o diálogo entre diferentes gerações, géneros e
indivíduos de diferentes origens, contribuindo assim para a coesão social.”
Seguimos depois por uma visita ao
espaço do Museu, onde apreciámos a exposição permanente dedicada ao canto coral
tradicional do Alentejo, onde viajámos pela história desta prática
poético-musical, conhecendo os seus aspetos mais importantes.
Foram uns momentos marcantes, que nos
conduziram á realidade alentejana com o seu rico património musical e com a sua
longa luta pela dignidade do trabalho.
Em jeito de despedida, aqui vos deixamos
alguns versos do Hino dos Mineiros, cuja letra, marcada pela forte
camaradagem entre trabalhadores, ecoa sentimentos profundos de luta e
fraternidade.
Na mina de S. João
Vê lá companheiro, vê lá
Vê lá como venho eu
Morreram quatro mineiros, vê lá
Vê lá companheiro, vê lá
Vê lá como venho eu
E sangue de um camarada, vê lá
Vê lá companheiro, vê lá
Vê lá como venho eu
E sangue de um camarada, vê lá
Vê lá companheiro, vê lá
Vê lá como venho eu
Seguiu-se um almoço no restaurante “Molha o Bico”, e após uma curta passeata por Serpa, o regresso a Lisboa.
Para terminar, uma especial
referência ao apoio dado na organização desta jornada alentejana, que se saldou
por um excelente e rico fim-de-semana, pelo nosso amigo Manuel Rego.





























1 Comments:
Mais um bom texto para a memória futura, parabéns. A sugestão de espreitar a anterior visita, foi no mínimo interessante. Reencontrámos muitos de nós, um pouco mais novos, num tempo em que, curiosamente, a máquina fotográfica ainda superava o atual telemóvel.
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