quinta-feira, agosto 07, 2014

Irlanda 2014 – (1) O Atrium à descoberta da Ilha Esmeralda

Parte I – Em Dublin, pelo Temple Bar, em busca das “half pints” da Guiness.

Depois das viagens ao Perú (a viagem do milénio, em 2000), Cuba (2002), México (2004), Argentina (2008), Canadá e EUA (2010) e Uzbequistão (2012), o Atrium apontou as suas baterias para a Ilha Esmeralda, uma terra plena de mitos e lendas com uma história rica, dramaticamente rica, que só há bem pouco tempo parece ter encontrado uma situação de paz e estabilidade.
Um outro motivo de interesse para esta viagem à Irlanda, prendia-se com as nossas origens comuns. De facto, segundo estudos recentes, realizados em 2004 por Daniel Bradley do Trinity College de Dublin, e confirmados por geneticistas da Universidade de Oxford, os habitantes das áreas célticas, como Gales, Escócia, Irlanda, Bretanha e Cornualha, são descendentes dos celtas da península ibérica, que teriam migrado para as ilhas Britânicas e Irlanda entre os anos 4.000 e 5.000 a.C., e aí ocupado as terras recém libertadas da cobertura glacial.
Íamos pois ao reencontro dos nossos familiares afastados, que já não víamos há cerca de seis mil anos… ainda os reconheceríamos? Eles ainda se lembrariam de nós?
Foi com estes sentimentos e estas dúvidas, que o grupo de 18 atriunistas e amigas se encontrou pelas 13 horas no Aeroporto da Portela. Aí iríamos conhecer a nossa guia Marisa, bem como os restantes 32 viajantes que completavam o grupo.
O voo a bordo do Airbus da Aer Lingus, que durou duas horas e um quarto, decorreu sem incidentes… e também sem uma refeição ou qualquer coisa que se mastigasse, ou que se bebesse… a bendita da crise dá para tudo. Que saudades das refeições quentinhas servidas a bordo, acompanhadas de um bom vinhito ou de uma refrescante cerveja!
Mas, com mais ou menos buraco no estômago, lá desembarcámos no aeroporto internacional de Dublin, e cumpridas as formalidades habituais, fomos recebidos pelo Rui Pinto Lopes que nos conduziu para o autocarro da empresa, que haveria de ser o nosso transporte durante toda a viagem.
Tivemos então o primeiro contacto com a cidade, num percurso de autocarro, que permitiu situar os seus principais locais de interesse. Dublin, cujo nome deriva da palavra irlandesa "Dubhlinn" que significa "Lago Negro", é a capital da República da Irlanda, e tem cerca de 530.000 habitantes.
O seu centro histórico é atravessado pelo rio Liffey, que possui diversas e interessantes pontes, das quais se podem desfrutar belos panoramas sobre a cidade. Este centro, no qual se situam as principais atracções, tem uma área relativamente reduzida, o que permite percursos pedonais entre os seus locais mais emblemáticos.
Destes destacamos o Castelo de Dublin, a Catedral de St. Patrick, a Christ Church Cathedral, o Trinity College, a National Gallery, a O’Connel Street, a City Hall (onde está instalada a Câmara Municipal), a Estação Central dos Correios (símbolo da Revolta da Páscoa de 1916, ao ser ocupada durante uma semana pelos combatentes pela independência da Irlanda, numa acção que culminou com a prisão e o fuzilamento dos seus catorze lideres, pelos ingleses) e, como não poderia deixar de ser, a omnipresente Guiness Storehouse (a das “pints” e das “half-pints”, o ouro negro dos irlandeses). 
O núcleo primitivo da actual cidade situa-se na zona sudoeste, a sul do rio Liffey, em volta do Dublin Castle, e foi povoado na pré-história. Em 841, os Vikings estabeleceram aí uma colónia mercantil que se desenvolveu gradualmente, dando assim origem à cidade que hoje existe.
A tarde já ia adiantada quando chegámos ao Hotel Maldron Parnell Square, situado a Norte do Liffey, muito próximo da O’Connel Street. Um ligeiro descanso nos quartos e pelas 20 horas descida ao restaurante do hotel, para a primeira refeição na Ilha Esmeralda. Muitos de nós não resistiram ao chamamento (… em Roma sê romano), e o repasto foi abrilhantado com as incontornáveis Guiness, que escorreram pelas lusas gargantas, sequiosas por provar o peculiar sabor a malte, e a espuma cremosa, da afamada stout irlandesa. 
Depois do jantar, o apelo pela noite de Dublin foi mais forte que o cansaço do primeiro dia de viagem, e o Temple Bar ali estava, exuberante, musical, colorido, com os seus pubs a convidar ao convívio descontraído em torno de umas “pints” ou de uns copos de “whiskey”, ao som das baladas celtas. Sentimo-nos em casa, e pela primeira vez tivemos a sensação que os nossos genes comuns, com os familiares afastados de seis mil anos, começavam a despertar…   
Este bairro, de estreitas vielas, antes de ser hoje o centro da animação noturna e artística de Dublin, tinha sido, no séc. XVIII, uma zona de má reputação graças aos bordéis aí existentes e, posteriormente, um próspero centro de artesãos, sobretudo relojoeiros e tipógrafos, que a industrialização do pós-guerra veio a destruir.
O primeiro dia estava cumprido. Uma noite retemperadora aguardava-nos no Maldron.
O domingo amanheceu claro, e depois do pequeno-almoço pusemo-nos a caminho da Catedral de St. Patrick, para uma visita guiada. Aqui faremos um parêntesis para falar um pouco desta personagem de marcada importância na história irlandesa.
St Patrick foi um missionário que teve um papel fulcral na cristianização da Irlanda, sendo hoje considerado o seu santo padroeiro. Nascido na Grã-Bretanha, quando tinha dezasseis anos foi capturado e vendido como escravo para a Irlanda, de onde fugiu e regressou a casa, seis anos mais tarde. Voltou à ilha em 432 iniciando o seu trabalho de evangelização das tribos celtas aí existentes. Segundo a lenda, a importância do trevo como símbolo da Irlanda, é-lhe atribuída porque utilizava as suas três folhas, para explicar como a Santíssima Trindade era três e um, ao mesmo tempo.
Esta Catedral de S. Patrick, a maior igreja da Irlanda, foi fundada no local onde St. Patrick teria baptizado os primeiros convertidos ao cristianismo. O actual edifício data da segunda metade do séc. XIII, mas sofreu diversas alterações ao longo do tempo. Em 1860 foi sujeito a grandes obras de restauro, financiadas por Sir Benjamin Guinness, neto de Arthur Guinness, o fundador da fábrica de cerveja… o ouro negro já praticava o mecenato no século XIX…
O Phoenix Park, cujo nome irlandês Fionn uisce significa "água limpa", foi o nosso objectivo seguinte. Com uma área de 707 hectares, constitui um dos maiores parques urbanos da Europa. Do alto da colina onde está instalada a Cruz Papal, que assinala a presença neste local do papa João Paulo II, em 1979, a vista perde-se pela imensidão do verde. Foi um momento de descanso que permitiu ainda uma bebida no agradável Victorian Kitchen Garden, um jardim que reproduz uma horta vitoriana, com o cultivo de frutas, legumes e flores.
Uma curiosidade, que talvez reflita a estreita ligação entre a República da Irlanda e os E.U.A., é o facto de no Phoenix Park existirem dois edifícios do século XVII, sendo um deles a residência oficial do Presidente da República e o outro, nada mais, nada menos do que a residência oficial do embaixador dos “States”… vizinhanças comprometedoras, estas…
Entretanto a hora do almoço chegou. E lá fomos de volta ao Maldron no lusitano autocarro da Pinto Lopes que, com as suas portas estrategicamente postas do lado contrário do passeio, implicava uma cuidadosa ginástica nas entradas e saídas, para evitar o atropelamento por um qualquer distraído condutor circulando pela esquerda (este hábito bretão de fazer tudo ao contrário dos continentais…).
A tarde foi livre, pelo que se verificou uma divisão por subgrupos, segundo os interesses de cada viajante e segundo as suas capacidades físicas de locomoção.
O escriba destas linhas integrou um grupo que, para além de calcorrear a pé a zona ribeirinha ao rio Liffey, para escutar o respirar da cidade, foi visitar a Christ Church Cathedral. Esta bela catedral, fundada em 1038 pelo rei da comunidade viquingue, Sitric “Barba Sedosa”, é a mais antiga das duas catedrais medievais de Dublin, sendo a outra a Catedral de St Patrick.
Ligada por uma ponte em arco à Christ Church Cathedral, está a Synod Hall, onde visitámos a exposição “Dublinia”, que tem como tema a chegada dos viquingues a esta região, fazendo uma recriação histórica dos vários aspectos da vida e da cultura deste povo navegador, fundador desta cidade de Dublin.
O jantar deste segundo dia foi acompanhado por um espectáculo de música e danças irlandesas. Tivemos assim a oportunidade de ouvir os instrumentos tradicionais, como o bodhrán (um tambor de pele de cabra, tocado com uma haste de madeira), o melodeon (a versão básica do acordeão de botões) e a flauta irlandesa (uma pequena flauta de metal de timbre claro e agudo).
Ao escutar a música e as danças tradicionais irlandesas, imediatamente nos vem à memória a música e as danças do Norte de Portugal, Minho e Trás-os-Montes, e as afinidades culturais com os nossos familiares afastados de seis mil anos voltaram aos nossos espíritos… aos poucos estamos e reencontrá-los…
E foi embalados nestes pensamentos, que regressámos ao hotel para a segunda noite nesta Ilha Esmeralda.   

1 Comments:

Blogger Fernando Veríssimo said...

Muito bonita a descrição, aliás como sempre.
Fico a aguardar o resto para pôr no meu album de viagens. Comodista...
Bjs
Joana

9/8/14 16:44  

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