quinta-feira, novembro 05, 2026

Um dia bem passado que começou no Farol do Cabo da Roca e terminou na Fundação Albuquerque.

 

II – A FUNDAÇÃO

 Localizada na antiga Quinta de São João, em Linhó, a Fundação Albuquerque é uma instituição cultural portuguesa que teve origem na coleção privada do engenheiro civil e empresário brasileiro Renato de Albuquerque, desenvolvida ao longo de mais de seis décadas e composta por mais de 2600 peças, abrangendo sobretudo porcelana chinesa produzida para exportação entre as dinastias Ming e Qing, mas contando também com porcelanas destinadas ao mercado imperial e doméstico chinês, bem como objetos provenientes da Índia, Sri Lanka, Japão e África.

A Fundação dedica-se ao estudo, conservação e divulgação da coleção, promovendo exposições de longa duração da coleção Albuquerque e exposições temporárias de artistas contemporâneos ligados à cerâmica, com o objectivo de promover a reflexão sobre o significado artístico, cultural e histórico da produção cerâmica.

Quando chegámos, ao passar pelos portões da entrada, ficámos surpreendidos com o conjunto do bonito edifício clássico, a antiga propriedade familiar do século XVIII, e do novo pavilhão que lhe fica adjacente, um pavilhão de vidro com um enorme telhado em madeira, tudo enquadrado por um belo e frondoso jardim.

Ao entrarmos no pavilhão descemos a escada em espiral que nos conduziu à galeria onde está a exposição Connections e aqui fomos recebidos pela Renata Madeira, que nos iria guiar na visita.

Esta exposição reúne quase trezentas peças - das mais diversas influências, do sul asiático, das arábias, do mundo islâmico, do mundo cristão, chinês, japonês e indiano - que contam histórias sobre as “conexões” que, ao longo de séculos, se estabeleceram entre povos e culturas muito distantes, estimuladas pela produção e pelo comércio da cerâmica e, principalmente, da porcelana.

Uma referência especial ao facto de esta colecção incluir 40 peças que fizeram parte da primeira encomenda feita pelos portugueses, no início do século XVII.

Um pouco de história do percurso de Renato Albuquerque, engenheiro civil brasileiro, hoje com 99 anos, cofundador na década de 50 do século passado, de uma das maiores empresas de construção naquele país.

A relação de Renato Albuquerque com Portugal é antiga. Aqui com amigos e negócios desde o final dos anos 80, conheceu nessa época uma quinta, perto de Sintra, de traça oitocentista e jardim de frondosas árvores, e aí faz a casa de verão da família. E é precisamente este o espaço que visitámos, agora reformulado e transformado em museu.

O início do colecionador foi algo insólito, pois a primeira peça de cerâmica chinesa comprada por si num leilão em São Paulo, estava rachada atrás… Aquilo que poderia ser um início desencorajador, foi o inverso, e levou, à criação da mais importante coleção privada do mundo de porcelana de exportação das dinastias Ming e Qing. Ao longo de seis décadas, Albuquerque reuniu mais de 2.600 obras de porcelana chinesas, sendo a mais antiga datada do século XX a.c.

Refira-se que algumas das peças da coleção já foram exibidas em instituições de renome internacional, como o Metropolitan Museum of Art (Nova Iorque) e o Victoria & Albert Museum (Londres), entre outras.

Tivemos ainda a oportunidade de apreciar, num pavilhão situado ao fundo do jardim, a exposição “Poemas – a Coleção Albuquerque por André Romão” que através do olhar de André Romão sobre a Coleção Albuquerque de Cerâmica Chinesa, reúne uma seleção de obras da coleção e um conjunto de obras do artista, estabelecendo diálogos entre diferentes objetos, materiais e formas de expressão.

A visita terminou na agradável esplanada junto do edifício clássico, saboreando um café (simpática oferta para os visitantes) num fim de tarde ameno.

Foi o final perfeito para mais uma actividade do nosso Atrium.























Um dia bem passado que começou no Farol do Cabo da Roca e terminou na Fundação Albuquerque.

I – O FAROL

Situado no ponto mais ocidental da Europa Continental, o Farol do Cabo da Roca que hoje visitámos, é um marco histórico e natural da costa portuguesa, com uma história que remonta a 1758, quando integrou o grupo de seis faróis mandados edificar por um alvará pombalino. Entrou em funcionamento em 1772, sendo o segundo mais antigo do litoral português.

Atualmente ainda é um importante ponto de referência para a navegação marítima e um local de grande beleza natural, aberto ao público para visita.

Situa-se a uma altitude de 165 metros acima do nível do mar, tem uma altura de 22 metros e a sua luz tem um alcance de, aproximadamente, 48 Km.

Em 1843 o farol sofreu importantes alterações, entre as quais se contou a montagem de um novo aparelho, composto de dezasseis candeeiros de Argand com refletores parabólicos funcionando a azeite. Este sistema já tinha movimento de rotação dado por um mecanismo de relojoaria.

Em 1897, viria a concretizar-se a instalação do farol elétrico, e em 1917 foi montada uma instalação produtora de gás acetileno em virtude de o gás no mercado não ter a pureza necessária ao bom funcionamento do material instalado nos faróis, farolins e bóias.

O novo aparelho ótico (aeromarítimo) que ainda hoje ali se mantém foi instalado em 1947, e em 1982 foi ligado à rede elétrica de distribuição pública. Finalmente em 1990 o farol foi automatizado e a instalação produtora de gás foi encerrada.

O pequeno Centro Interpretativo que hoje visitámos foi inaugurado no passado dia 23 de julho e aqui impõe-se uma referência aos 7 valentes atriunistas que subiram e estreita escada de caracol até ao cimo da torre do farol, de onde puderam admirar a magnífica panorâmica sobre o Oceano Atlântico, bem como a belíssima paisagem que o rodeia.

Depois de um breve café tomado na loja adjacente, voltámos ao autocarro que nos iria transportar até ao restaurante Refúgio da Roca, onde nos esperava um animado (e demorado…) almoço.

Após o repasto novamente na estrada a caminho do segundo objectivo do dia, a Fundação Albuquerque.

























segunda-feira, outubro 26, 2026

O Atrium no Museu Vieira da Silva redescobrindo a obra de Arpad Szenes, e recordando Eduardo Salavisa

 

Foi no passado dia 16 de outubro que nos encontrámos no Jardim das Amoreiras para uma visita guiada à exposição “Arpad” que, segundo o seu curador Nuno Faria, pretende olhar para o pintor de origem húngara com novos olhos.

Não é uma retrospetiva de Arpad Szenes, até porque a exposição mostra-nos sobretudo obras de pequena e média dimensão do artista que foi casado com Maria Helena Vieira da Silva de 1930 até à sua morte, em Paris, em 1985.

Fomos acompanhados durante a visita pelo Renato Santos que nos conduziu de uma maneira descontraída e ao mesmo tempo didática e interessante pelos seis núcleos temáticos em que a exposição se divide: A Obra ao Negro, Simbolismos, Metamorfoses de toda as sortes, Corpos em Cena, Derivas e Irisdescências.

De salientar a diversidade de registos e técnicas representados nesta exposição o que, nas palavras de Nuno Faria, mostra “Arpad como uma espécie de flâneur”.

Uma referência ao primeiro núcleo expositivo, Obra ao Negro, onde vimos desenhos de Arpad realizados nos anos 1920, quase todos autorretratos a carvão e tinta da china, mas também desenhos de florestas e árvores, algumas delas calcinadas. Eram os anos da Primeira Guerra Mundial, tendo Arpad feito o serviço militar na cavalaria, e embora não indo para a frente de batalha, observou de perto a morte, pois foi enviado para Zagreb como retratista de jovens soldados mortos em combate.

Para concluir algumas linhas sobre a vida e a obra de Arpad Szenes, nascido em Budapeste a 6 de maio de 1897 e falecido em 1985.

Em 1930 casou com Maria Helena Vieira da Silva em Paris, tendo adquirido a nacionalidade francesa em 1956. Oriundo de uma família artística (o tio era compositor e músico, um primo escultor e outro encenador e diretor de um teatro em Budapeste), cedo revelou talento para as artes. Em 1920 inscreve-se na École Libre des Beaux-Arts de Budapeste, mas a sua ambição é ir para Paris. Expõe pela primeira vez em 1922 num concurso de pintura abstrata no Museu Ernst, de Budapeste.

Em 1925 passa uma temporada em Paris vivendo dos retratos e caricaturas que faz nos cafés de Montmartre, onde conhece Maria Helena Vieira da Silva em 1928.

A obra de Arpad Szenes é indissociável da relação com Vieira da Silva, e refira-se a propósito que esta exposição que visitámos abre com uma obra feita a dois, Le Feu d'Artifice (1939). Para o curador Nuno Faria, "esta exposição conta a história de outro pintor, aquele que se foi mantendo na sombra da ascensão de Vieira ao estatuto de grande artista".

Arpad Szenes, ao longo das décadas, expôs em importantes instituições e galerias na Europa e fora dela. Em 1962 foi nomeado Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras pelo Estado Francês, e em 1988, a título póstumo, foi agraciado pelo Presidente da República Portuguesa com a Grã-Cruz da Ordem de Santiago da Espada.










Terminada a visita, juntámo-nos no Jardim das Amoreiras, junto a uma Cadeira colocada no meio de um canteiro, que não é mais do que uma original escultura que evoca e homenageia Eduardo Salavisa, que foi um destacado Ilustrador, pintor e professor, fundador dos Urban Sketchers Portugal.

Esta escultura, da autoria de Clara Marta foi inaugurada no dia 3 de abril de 2022, e pretende ser um convite ao desenho do quotidiano, como se pode ler na placa informativa que se encontra junto dela.

Recorde-se que Eduardo Salavisa, que faleceu em 7 de novembro de 2020, era irmão do nosso companheiro Tó, e animou diversas iniciativas do Atrium onde pudemos apreciar a sua simpatia e a qualidade da sua obra.

Ainda relativamente ao “cadeirão” refira-se que ele é uma réplica em bronze da cadeira onde Eduardo Salavisa retratou 96 amigos que o visitaram durante a sua doença, conjunto de desenhos que foi publicado em livro com o título “Caderno de Retratos – Memórias Imperfeitas” (mais abaixo publicamos o retrato da nossa companheira Guida de Sousa, incluído nessa publicação).