O Atrium no centenário de Amílcar Cabral
Não te escondas nas grutas de meu ser,
não fujas à Vida.
Quebra as grades invisíveis da minha prisão,
abre de par em par as portas do meu ser
— sai…
Sai para a luta (a vida é luta)
os homens lá fora chamam por ti,
e tu, Poesia és também um Homem.
Ama as Poesias de todo o Mundo,
— ama os Homens
Solta teus poemas para todas as raças,
para todas as coisas.
Confunde-te comigo…
Vai, Poesia:
Toma os meus braços para abraçares o Mundo,
dá-me os teus braços para que abrace a Vida.
A minha Poesia sou eu.
(Amílcar Cabral, em “revista Seara Nova”. 1946)
Resta-nos
acrescentar que o concerto contou com a presença da Orquestra Metropolitana de
Lisboa, com Tito Paris, Lura, Cremilda Medina e IIolanda Pereira, que nos conduziram,
durante uma hora e meia, numa extraordinária viagem pela rica cultura musical
de Cabo Verde, que culminou com o inevitável “Sodade”, cantado em uníssono
pelos artistas e pelo público que encheu o São Luiz.
Para
concluir esta simples crónica de uma noite especial, reproduzimos mais um poema
de Amílcar Cabral, que foi cantado no espectáculo, pela Cremilda Medina.
Mamãe Velha, venha ouvir comigo
o bater da chuva lá no seu portão.
É um bater de amigo
que vibra dentro do meu coração.
A chuva amiga, Mamãe Velha, a chuva,
que há tanto tempo não batia assim…
Ouvi dizer que a Cidade-Velha,
— a ilha toda —
Em poucos dias já virou jardim…
Dizem que o campo se cobriu de verde,
da cor mais bela, porque é a cor da esp´rança.
Que a terra, agora, é mesmo Cabo Verde.
— É a tempestade que virou bonança…
Venha comigo, Mamãe Velha, venha,
recobre a força e chegue-se ao portão.
A chuva amiga já falou mantenha
e bate dentro do meu coração!