segunda-feira, novembro 11, 2024

O Atrium no centenário de Amílcar Cabral

Foi no vetusto teatro São Luiz que assistimos, no passado dia 6 de novembro, ao concerto comemorativo do Centenário de Amílcar Cabral, o revolucionário africano que idealizou a libertação dos povos sob dominação colonial e prosseguiu militar e diplomaticamente esse projecto, até ao seu assassinato em janeiro de 1973, na cidade de Conacri, por agentes a soldo do colonialismo português. 
Amílcar Cabral nasceu em 1924, em Bafatá, uma pequena cidade da Guiné-Bissau, filho de pais cabo-verdianos. A sua infância decorreu numa sociedade onde o racismo e a opressão colonial eram constantes, gerando um ambiente de lutas e resistências.
Desde jovem destacou-se como um líder nato, e a sua inteligência e carisma tornaram-no uma figura respeitada por todos. Em 1945, rumou Portugal para estudar agronomia, mas logo percebeu que a sua verdadeira missão era a luta pela independência do seu país e de toda a África. Em 1956 funda o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), que se tornaria a principal organização revolucionária da região. Com a sua liderança, o PAIGC mobilizou milhares de pessoas numa luta armada contra o colonialismo português, que durou mais de uma década.
Outro fator de destaque na sua actuação, foi o nível de conscientização política e humana que defendia, na luta pela libertação dos povos africanos, tendo por exemplo acabado com o papel secundário destinado às mulheres, mostrando aos militantes a importância delas no processo revolucionário. Muitas foram comandantes, comissárias e combatentes na frente da guerra.
Para suplantar a colonização acreditava que seria necessário o fortalecimento, a conscientização, e a defesa da cultura africana. Considerava mesmo que estas tarefas eram muito mais importantes, no primeiro momento, do que a independência política. Não adiantaria expulsar os colonizadores se o imaginário da população continuasse com os seus referenciais.
Essa ideia estava bem presente nesta reflexão de Amílcar Cabral, feita em 1978:
“Toda a educação portuguesa deprecia a cultura e a civilização do africano. As línguas africanas estão proibidas nas escolas.
O homem branco é sempre apresentado como um ser superior e o africano como um ser inferior. Os conquistadores coloniais são descritos como santos e heróis. As crianças adquirem um complexo de inferioridade ao entrarem na escola primária. Aprendem a temer o homem branco e a ter vergonha de serem africanos […]”.
Além de ser um líder revolucionário e um intelectual, Amílcar Cabral era também um poeta talentoso, tendo escrito diversos poemas sobre a luta pela independência e sobre a cultura africana, que são considerados verdadeiras obras-primas. Em jeito de homenagem, ao homem e ao poeta, aqui deixamos o seu poema intitulado “A minha poesia sou eu”.

 … Não, Poesia:

Não te escondas nas grutas de meu ser,
não fujas à Vida.
Quebra as grades invisíveis da minha prisão,
abre de par em par as portas do meu ser
— sai…
Sai para a luta (a vida é luta)
os homens lá fora chamam por ti,
e tu, Poesia és também um Homem.
Ama as Poesias de todo o Mundo,
— ama os Homens
Solta teus poemas para todas as raças,
para todas as coisas.
Confunde-te comigo…
Vai, Poesia:
Toma os meus braços para abraçares o Mundo,
dá-me os teus braços para que abrace a Vida.
A minha Poesia sou eu.

(Amílcar Cabral, em “revista Seara Nova”. 1946)

Resta-nos acrescentar que o concerto contou com a presença da Orquestra Metropolitana de Lisboa, com Tito Paris, Lura, Cremilda Medina e IIolanda Pereira, que nos conduziram, durante uma hora e meia, numa extraordinária viagem pela rica cultura musical de Cabo Verde, que culminou com o inevitável “Sodade”, cantado em uníssono pelos artistas e pelo público que encheu o São Luiz.

Para concluir esta simples crónica de uma noite especial, reproduzimos mais um poema de Amílcar Cabral, que foi cantado no espectáculo, pela Cremilda Medina.

 Regresso

Mamãe Velha, venha ouvir comigo
o bater da chuva lá no seu portão.
É um bater de amigo
que vibra dentro do meu coração.

A chuva amiga, Mamãe Velha, a chuva,
que há tanto tempo não batia assim…
Ouvi dizer que a Cidade-Velha,
— a ilha toda —
Em poucos dias já virou jardim…
Dizem que o campo se cobriu de verde,
da cor mais bela, porque é a cor da esp´rança.
Que a terra, agora, é mesmo Cabo Verde.
— É a tempestade que virou bonança…

Venha comigo, Mamãe Velha, venha,
recobre a força e chegue-se ao portão.
A chuva amiga já falou mantenha
e bate dentro do meu coração!