As seis décadas da Tricontinental e da Revolução Cubana revisitadas numa sessão do Atrium
Foi no passado dia 7 de março, na Boutique
da Cultura, em Carnide, que o Atrium evocou as seis décadas da Conferência Tricontinental
e da Revolução Cubana.
A sessão foi animada pelas nossas
convidadas, a Raquel Ribeiro e a Marta Lança, que traçaram uma panorâmica sobre
a história e a génese daquela conferência, cuja primeira reunião foi realizada
em janeiro de 1966, bem como sobre a situação difícil hoje vivida em Cuba,
fruto do endurecimento da posição dos EUA, liderados por uma administração que
vem atuando ao arrepio do Direito Internacional e da Carta das Nações Unidas.
Com o objectivo de promover a
solidariedade entre os povos da África, Ásia e América Latina, que eram
consideradas as três grandes regiões dos chamados "países do Terceiro
Mundo”, cerca de 500 participantes, oriundos de 82 países, compareceram em
Havana para a Conferência Tricontinental, que teve lugar entre os dias 3 e 15
de janeiro de 1966.
A sua principal tarefa era lutar
contra o imperialismo e o colonialismo, além de promover a descolonização e a
independência política e económica dessas regiões.
Embora a organização já não exista,
seu legado continua a influenciar movimentos políticos e sociais em todo o
mundo, pois os seus ideais de justiça social, igualdade e libertação ainda são
relevantes nos dias de hoje. Desse legado destaque-se o Instituto
Tricontinental de Pesquisa Social, que se define como uma continuação da
herança da conferência Tricontinental, lutando nos dias de hoje por um mundo de
paz e justiça, baseado em dois conceitos relacionados, a soberania e a
dignidade.
Refira-se também que a Tricontinental,
além das várias atividades e campanhas políticas realizadas ao longo de sua
existência, publicou a revista "Tricontinental", que era
distribuída em vários países e continha artigos sobre questões relacionadas com
o anticolonialismo, o socialismo e a luta contra o imperialismo.
Na sessão abordou-se também a actual
situação de Cuba, com a nova escalada do bloqueio, levada a cabo pela actual
administração americana, que constitui um criminoso projecto de punição
colectiva de um povo.
Sobre este tema, pelo seu interesse e
actualidade, reproduzimos extratos de um texto da nossa convidada Raquel
Ribeiro, datado de fevereiro deste ano.
“…. Há pouco espaço para explicar o
que representa este novo bloqueio energético. É pouco mais do que óbvio.
Independentemente de o Governo ter diversificado as fontes de energia com
investimentos na geração de energias renováveis, ainda não é suficiente. Se não
há combustível não há transportes. Se não há transportes as pessoas não vão
trabalhar. As escolas, universidades, comércio não abrem. Os tractores não
podem arar a terra. Os produtos não podem sair do campo e abastecer mercados.
As ambulâncias não podem transportar doentes. Os geradores, alimentados a
combustível, deixam de funcionar. As bombas deixam de conseguir bombear água.
Não há hotel e piscina em Varadero que aguente. As pessoas não conseguem
deslocar-se, mas também não conseguem trabalhar em casa – sem electricidade não
há computadores, telefones, eventualmente, internet. Nada de nada se produz. É
um cerco que remete Cuba a uma condição quase medieval. E é precisamente essa a
intenção do Governo dos Estados Unidos: apertar o garrote até o povo sucumbir,
eventualmente se rebelar e, aí, intervir e impor o seu “regime change” (...).
… Cuba é um problema tão grande para
os Estados Unidos que hoje, por causa de Cuba, da sua existência, de persistir
no seu projecto, do facto de continuar ali, de não se vergar um milímetro, toda
a política americana é, à escala nacional e à escala global, a emanação mais
perfeita da política de Miami contra Cuba: autoritária, fascista,
desumanizante. A chegada de Marco Rubio ao lugar de Secretário de Estado do
Governo norte-americano é, em si, o triunfo da política esclerosada de Miami
contra Cuba no coração do imperialismo, agora expandida ao mundo inteiro.
É por isso também que não é
admissível a qualquer esquerda no mundo ficar em silêncio sobre a nova escalada
dos EUA. Os “memes” que circulam na Florida sobre a transformação de Cuba num
centro comercial, de arranha-céus, casinos, Walmarts e Taco Bells, são
demasiado semelhantes às imagens partilhadas por Trump sobre a “riviera” que
projectou para Gaza, sobre os escombros e os corpos de milhares de
palestinianos, após mais de dois anos de bombardeamentos incessantes e do
genocídio do povo palestiniano às mãos de Israel (…).
… Como escreveu o analista cubano
Iramís Rosique, no Diário Red, “enquanto o socialismo cubano existir, o limite
do possível e do radical continuará muito à esquerda. Somos os últimos soldados
da ‘guerra fria’, à luz dos quais todo o progressismo e social-democracia
continuam a parecer aceitáveis para o quadro geral do sistema”. Num momento em
que os anos da “geringonça” são apelidados de “socialismo”, em que governantes
como Pedro Sánchez ou Lula são considerados “comunistas”, diante do avanço
imparável da extrema-direita e da internacional reaccionária apoiada por Trump
e Rubio, “apagar a experiência cubana e encerrar definitivamente o capítulo do
socialismo ‘real’ no hemisfério permitiria entrar numa outra etapa da guerra
cultural, na qual os novos ‘intoleráveis’ seriam aqueles que ainda hoje cabem
no pacto democrático liberal”.


